Fundadora
Aos 10 de março de 1861, na risonha cidadezinha romanhola, Forlí, nasce Clélia Merloni, filha de Teresa Brandinelli e de Joaquim Merloni.
Clélia que nascera após duas irmãzinhas que não sobreviveram, perde a mãe com a idade de três anos.
O senhor Merloni, depois da morte da esposa, muda-se para São Remo e com iniciativa e grande capacidade, torna-se em pouco tempo, rico industrial, contraindo novas núpcias com a senhora Maria Joana Boeri, viúva de grandes posses.
A pequena Clélia é educada pela avó e pela boa madrasta que lhe inspiram sentimentos de profunda piedade, enquanto o pai, tornado anticlerical e maçom, deixa-se absorver pelo trabalho que o afasta sempre mais do convívio familiar.
Nutre, no entanto, um amor apaixonado pela filha a quem procura dar ótima educação cultural, sonhando para ela um brilhante futuro.
Clélia, porém, sofre e amadurece gradativamente sua decisão de dar um sentido mais nobre e autêntico à própria existência para salvar com sua vida, a vida de seu pai
Renuncia às ambições paternas para dedicar-se inteiramente a Cristo e às pessoas, na vida consagrada. O senhor Merloni opõe-se categoricamente às aspirações da filha mas, por fim, é constrangido a submeter-se à indomável vontade de Clélia.
Esta, após várias tentativas de experiência de vida religiosa, ingressa em Como, no Instituto das Irmãs de Dom Guanella, onde empreende uma missão entre as órfãs a quem se dedica com todo amor.
Neste clima de doação, de recolhimento e oração ela sente forte impulso para fundar uma nova congregação, dedicada a obras de caridade que exprimam visivelmente o amor de Cristo: será o Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus que surgirá em Viareggio, em 1894.
A obra cresce vicejante e rica de promessas e de irmãs que se unem a Madre Clélia e as suas primeiras companheiras, Irmã Eliza Pederzini e Irmã Josefina dIngenheim, dedicando-se com amor aos órfãos, aos pobres, aos doentes, à juventude, destinatários também do grande patrimônio deixado pelo senhor Joaquim Merloni ( 1895) à querida filha, que tem o conforto de ver, finalmente, seu pai reconciliado com Deus.
Um grave desastre financeiro (1896), por desonestidade de um administrador, faz com que Madre Clélia prove dolorosamente a humilhação e a mais extrema pobreza, que a conduzem a confiar evangelicamente na Providência do Pai Celeste.
Não poucas e penosas foram as conseqüências da falência econômica: uma série de acusações, de citações, de intermináveis controvérsias, que a envolvem diretamente, a angustiam e a mortificam. Também na opinião pública, antes tão favorável às Apóstolas, agora surge o mau humor diante das Irmãs e, em particular, diante de Madre Clélia, considerada, injustamente, a principal responsável por tudo o que acontece. Assim, ela chega até a ser aconselhada a se afastar de Viareggio. Refugia-se, temporariamente em Broni, com algumas Apóstolas.
São anos duros de amargor, em que suas filhas se vêem constrangidas a estender a mão, para sustentar as obras começadas.
Em uma dessas ocasiões em que as irmãs pedem esmolas, em 1899, que acontece o providencial encontro com o bispo de Piacenza, o servo de Deus Dom João Batista Scalabrini. Fazia tempo que ele estava procurando uma fundação de Irmãs para assistência aos imigrantes, que abandonavam a Itália em busca de trabalho na América. Ele se interessa, portanto, pela obra de Clélia, infunde-lhe renovada coragem e assume toda a responsabilidade financeira.
Em 10 de junho de 1900, Dom Scalabrini concede a aprovação episcopal à Congregação das Irmãs Apóstolas Missionárias do Sagrado Coração de Jesus e aprova a Regra, direcionada para o espírito missionário. No mesmo dia, recebe a profissão religiosa de Clélia Merloni e de outras dez irmãs. Já tendo fechado a obra em Viareggio, a sede central do Instituto se estabelece em Piacenza.
No dia 10 de agosto do mesmo ano, seis Apóstolas missionárias, depois de terem recebido o crucifixo missionário das mãos de dom Scalabrini, partem de Gênova para São Paulo, Brasil. Em outubro, outras quatro Irmãs partem para Santa Felicidade, Paraná, Brasil.
Dois anos mais tarde, em 16 de junho de 1902, seis Apóstolas missionárias partem de Gênova no navio inglês "Vancouver" para Boston, Mass (USA), grande centro de imigração italiana, para ajudar os missionários de São Carlos.
As obras se multiplicam e a Congregação aprofunda suas raízes robustecida pelas tempestades que se abatem sobre ela. Já em 1903, conta com 30 casas e 197 Irmãs. Após a morte de Dom Scalabrini, em 1905, a Casa Mãe é transferida para Alessandria.
Lá, outras duríssimas provações esperam a Fundadora, como se o Senhor quisesse avaliar-lhe constantemente a fidelidade. Vítima de calúnias e de pérfidas maquinações, perde toda a autoridade e prestígio no próprio Instituto. Em 1911, a Santa Sé a retira da direção da Congregação e nomeia como Superiora Geral Madre Marcelina Viganó, que leva o Instituto a um sempre crescente desenvolvimento apostólico na Itália e no além mar.
Madre Clélia pronuncia um resignado "fiat" e se recolhe na oração, mantendo sempre uma atitude forte e digna. Em 1916, depois de uma meditada e sofrida decisão, pede à Santa Sé a dispensa dos votos. Tendo-a obtido, deixa o Instituto e começa um período de exílio longo e doloroso.
Gênova, Turim, Roccagiovine, Marcellina, são as etapas ulteriores do seu atormentado, mas claro e laborioso caminho. O amor da Madre permanece sempre vivo e total para com suas filhas, as Apóstolas do Sagrado Coração, das quais sempre ela se sente mãe e Fundadora.
Passam os anos e, em 28 de fevereiro de 1928, pede humildemente, e consegue ser readmitida no Instituto fundado por ela mesma, no qual sempre havia pensado com dolorosa saudade.
No dia 7 de março do mesmo ano, ela é acolhida na Casa Geral em Roma. A Superiora Geral anuncia a todas as casas, através de uma carta circular: "Os nossos votos mais ardentes finalmente se realizam!... A nossa Veneradíssima Madre Fundadora está novamente entre nós, desde o dia 7 passado. O Sagrado Coração lhe restituiu a saúde, assim ela poderá gozar aqui na Casa Mãe, entre o afeto de suas filhas, aquela paz e quietude que lhe são tão necessárias, especialmente depois de tantas provações e lutas".
Já no crepúsculo da vida, transcorre os últimos dois anos, entre suas queridas filhas, em meditação e oração. Ela continua o seu apostolado silencioso de oferta e imolação pelo tão querido Instituto, pela conversão dos pecadores e em reparação aos ultrajes que recebe o Coração de Jesus, ao qual aspira, unir-se sempre mais.
O encontro com o Esposo acontece no dia 21 de novembro de 1930, quando ela tem sessenta e nove anos. É sexta-feira, dia dedicado ao Sagrado Coração e Festa da Apresentação de Maria no Templo. Como a Virgem Maria, Madre Clélia é apresentada na Casa do Senhor.
Enterrada, provisoriamente, no cemitério Verano, Roma, a veneranda urna de Madre Clélia foi exumada e seu corpo encontrado íntegro e flexível no ano de 1945. Levado com grande alegria para a Capela da Casa Geral, lá está aguardando a futura ressurreição e, se o Coração de Jesus quiser, também a sua glorificação na terra.
O edito da causa de canonização de Madre Clélia Merloni foi publicado por Sua Eminência, o Cardeal Ugo Poletti, na ocasião Vigário da Diocese de Roma, em 20 de maio de 1989 e o ato de abertura do Processo aconteceu no Tribunal Diocesano de Roma, em 18 de junho de 1990.
No dia 1º de abril de 1998, o Cardeal Camillo Ruini, Vigário do Papa para a Diocese de Roma, fechou solenemente o processo diocesano da Causa de Canonização. Dezesseis dias depois foi aberto oficialmente, no Vaticano o Processo de Canonização.
Madre Clélia vive ainda no seu Instituto, não somente na recordação e no amor das filhas, mas também na atividade apostólica de todas as suas irmãs espalhadas nos vários continentes.
Vive, na medida em que cada Apóstola, filha fiel de Madre Clélia, com criatividade do seu amor para com Deus e pelas pessoas, se torna:
- Apóstola como os Apóstolos
- Apóstola do amor
- Apóstola Reparadora
